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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sobre liberdade espiritual e verdade, por Krishnamurti.



Palestra proferida por Krishnamurti no evento de encerramento da Ordem Estrela do Oriente, fundada em 1911, e da qual ele foi nomeado Dirigente. Em 3 de agosto de 1929, dia da abertura do Acampamento Anual da Estrela, em Ommen, Holanda, Krishnamurti dissolveu a Ordem diante de 3.000 membros. Abaixo está o texto completo da palestra que ele deu naquela ocasião:

"O diabo e um amigo dele estavam descendo a rua quando viram à sua frente um homem se agachar e pegar algo do chão, dar uma olhada e colocar no bolso. O amigo perguntou ao diabo: 
_ Que foi que o homem pegou?
_ Ele pegou um pedaço da verdade - respondeu o diabo. 
_ Isso é um negócio muito ruim pra você, então. - disse o amigo dele. 
_ Oh, de modo algum! - retrucou o diabo - Vou deixar que ele a organize."


Eu afirmo que a Verdade é uma terra sem caminhos, e vocês não podem alcançá-la por nenhum caminho, qualquer que seja, por nenhuma religião, por nenhuma seita. Este é o meu ponto de vista, e eu o confirmo absoluta e incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem pode qualquer organização ser constituída para conduzir ou coagir pessoas para qualquer senda particular. Se vocês logo compreendem isso, verão o quanto é impossível organizar uma crença. Uma crença é algo puramente individual, e vocês não podem e não devem organizá-la. Se o fizerem, ela se torna morta, cristalizada; torna-se um credo, uma seita, uma religião a ser imposta aos outros. Isto é o que todos estão tentando fazer mundo afora.

A Verdade é restringida e usada como joguete por aqueles que são fracos, por aqueles que estão apenas momentaneamente desgostosos. A Verdade não pode ser rebaixada, mas, em vez disso, deve o indivíduo fazer esforço para ascender até ela. Vocês não podem trazer o topo da montanha para o vale. Se querem atingir o cume da montanha, vocês devem atravessar o vale e escalar as escarpas sem medo dos perigosos precipícios.

Portanto, esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, pela qual a Ordem da Estrela deva ser dissolvida. Nada obstante, vocês provavelmente formarão novas Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações em busca da Verdade. Eu não quero pertencer a nenhuma organização do gênero espiritual, por favor, compreendam isto. Eu faria uso de qualquer organização que me levasse a Londres, por exemplo; isso é um tipo bastante diferente de organização, meramente mecânica, como o correio e o telégrafo. Eu usaria um automóvel ou um vapor para viajar, esses são apenas mecanismos físicos, os quais nada têm a ver com espiritualidade. Novamente, eu sustento que nenhuma organização pode conduzir o homem à espiritualidade.

Se uma organização for criada com esse propósito, ela se transforma numa muleta, um ponto fraco, uma dependência, incapacita o indivíduo, e impede-o de crescer, de estabelecer sua singularidade, que reside na descoberta que ele deve fazer – por si mesmo - daquela Verdade absoluta, não condicionada. Esta é, portanto, outra razão pela qual eu decidi, uma vez que aconteceu de ser eu o Dirigente da Ordem da Estrela, dissolvê-la. Ninguém persuadiu-me a tomar esta decisão. Isto não é nenhuma grande façanha, porque eu não quero seguidores, deixo isso claro. No momento em que vocês seguem alguém, deixam de seguir a Verdade. Não estou preocupado em saber se vocês prestam atenção ao que eu digo ou não.

Eu quero fazer determinada coisa no mundo e eu vou fazê-la com resoluta concentração. Estou interessado somente numa coisa essencial: libertar o ser humano. Eu desejo libertá-lo de todas as prisões, de todos os temores, e não fundar religiões, novas seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então vocês naturalmente me perguntam por que eu sigo mundo afora, falando continuamente. Eu lhes direi por que razão eu faço isso: não porque eu deseje seguidores, não porque eu queira um grupo especial de discípulos especiais. (Como os homens gostam de ser diferentes de seus semelhantes, por ridículas, absurdas e banais que suas distinções possam ser! Eu não quero encorajar esse disparate). Não tenho discípulos ou apóstolos, quer na terra quer no reino da espiritualidade. “Não é a sedução do dinheiro nem o desejo de viver uma vida confortável o que me atrai. Se eu quisesse uma vida confortável eu não teria vindo a um acampamento ou a viver num país úmido. Estou falando francamente porque quero isso estabelecido de uma vez por todas. Não quero essas discussões pueris ano após ano.

Um jornalista que me entrevistou considerou uma façanha o ato de dissolver uma organização na qual havia milhares e milhares de membros. Para ele isso foi um grande feito, porque ele disse: “O que você fará doravante, como você viverá? Você não terá nenhum séquito, as pessoas não mais o ouvirão”. Se houver apenas cinco pessoas que ouçam, que tenham suas faces voltadas para a eternidade, isso será suficiente. De que serve ter milhares de pessoas que não compreendem, que estão totalmente imersas em preconceito, que não querem o novo, mas que até mesmo traduziriam o novo para satisfazerem seus próprios eus estéreis e estagnados? Se eu falo de forma contundente, por favor, não me entendam mal, não é por falta de compaixão. Se vão um cirurgião para uma operação, não seria bondade da parte dele operar mesmo que lhes cause dor? Da mesma forma, se eu falo de maneira direta, não é por falta de afeto verdadeiro – pelo contrário.

Tal como disse, tenho um só propósito: tornar o homem livre, impulsioná-lo para liberdade, auxiliá-lo a romper com todas as limitações, por que somente isso lhe dará felicidade eterna, lhe dará a incondicionada realização do ser.

Porque eu sou livre, incondicionado, completo, não a parte - não a relativa, mas a Verdade inteira que é eterna – eu desejo que aqueles que buscam compreender-me sejam livres: não que me sigam, não que façam de mim ma prisão que se transforme em religião, uma seita. Ao contrário, eles deveriam estar livres de todos os medos, do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida.

Assim como um artista pinta um quadro porque se deleita com essa pintura, porque ela é sua auto-expressão, sua glória, seu bem-estar, assim faço isso, e não porque eu queira algo de alguém.

“Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a atmosfera de autoridade, a qual vocês acham que os conduzirá à espiritualidade. Vocês pensam e esperam que alguém possa, por meio de seus extraordinários poderes – um milagre – transportá-los a esse reino de eterna liberdade que é a Felicidade. Toda sua concepção de vida está baseada nessa autoridade".

Vocês têm-me ouvido por três anos, sem que qualquer mudança tenha ocorrido, exceto em uns poucos. Analisem agora o que eu estou dizendo, sejam críticos, de forma que vocês entendam radicalmente, fundamentalmente. Quando vocês procuram uma autoridade que os conduza à espiritualidade, vocês são automaticamente instados a construir uma organização em torno daquela autoridade. Pela simples criação de tal organização, a qual, vocês pensam, auxiliará essa autoridade a conduzi-los à espiritualidade, vocês estão encerrados numa prisão.

Se falo com franqueza, por favor, lembrem-se de que assim o faço não por aspereza, não por crueldade, não por entusiasmo do meu propósito, mas porque eu quero que vocês entendam o que eu estou dizendo. Esta é a razão porque vocês estão aqui, e seria uma perda de tempo se eu não explicasse claramente, decisivamente, meu ponto de vista. “Por dezoito anos vocês vêm-se preparando para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Durante dezoito anos vocês se organizaram, procuraram alguém que desse um novo deleite para seus corações e mentes, que transformasse toda a sua vida, que lhes desse uma nova compreensão; por alguém que os alçasse a um novo plano de vida, que lhes desse um novo alento, que os libertasse – mas agora, vejam o que está acontecendo! 

Reconsiderem, ponderem consigo mesmos, e descubram de que maneira essa crença os tornou diferentes – não com a diferença superficial de usar de um crachá, que é banal, absurda. De que maneira tal crença lhes varreu da vida todas as coisas inessenciais? Essa é a única maneira de ponderar: de que modo vocês estão mais livres, mais nobres, mais perigosos para qualquer Sociedade que seja baseada no falso e no inessencial? De que maneira os membros desta organização da Estrela tornaram-se diferentes? Como eu disse, vocês vêm-se preparando para mim durante dezoito anos. Não me importa se vocês acreditam que eu sou o Instrutor do Mundo ou não. Isto tem muito pouca importância.

Não consigo fazer-me mais claro do que isso. Não quero que concordem comigo, não quero que me sigam, quero que entendam o que eu estou dizendo. “Essa compreensão é necessária porque sua crença não os transformou, mas apenas os complicou, e porque vocês não estão dispostos a enfrentar as coisas como elas são.Vocês querem ter seus próprios deuses, - novos deuses em vez dos antigos, novas religiões no lugar das antigas, novas fórmulas no lugar das antigas, todos igualmente sem valor, todos barreiras, todos limitações, todos muletas. No lugar de velhas preferências espirituais vocês têm novas preferências espirituais, em vez de antigas adorações vocês têm novas adorações.

Todos vocês dependem, para sua espiritualidade, para sua felicidade, para sua iluminação, de outra pessoa; e nada obstante vocês estejam se preparando para mim por dezoito anos, quando eu digo que essas coisas são inúteis, quando eu digo que vocês devem jogá-las fora e olhar para dentro de vocês próprios para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do ser, nenhum de vocês está disposto a fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. Então, por que se ter uma organização?

Por que ter pessoas falsas, hipócritas me seguindo, a personificação da Verdade? Por favor, lembrem-se de que não estou dizendo algo cruel ou indelicado, mas chegamos a uma situação em que vocês têm que enfrentar as coisas como elas são. Eu disse no ano passado que não transigiria. Muito poucos me ouviram, então. Este ano eu tornei isso absolutamente claro. Eu não sei como milhares de pessoas mundo afora – membros da Ordem – têm-se preparado para mim durante dezoito anos, e ainda agora não querem escutar incondicionalmente, inteiramente o que eu digo.

Tal como disse antes, meu propósito é tornar o ser humano incondicionalmente livre, daí eu reafirmo que a única espiritualidade é a incorruptibilidade do eu que é eterno, é a harmonia entre razão e amor. Esta é a absoluta, incondicionada Verdade que é a própria Vida. Quero, por isso, libertar o ser humano, exultante como o pássaro no céu claro, aliviado, independente, extático nessa liberdade. E eu, para quem vocês estão se preparando por dezoito anos, digo agora que vocês devem estar livres de todas essas coisas, livres de suas complicações, suas confusões.

Para isto vocês precisam não possuir uma organização baseada em crença espiritual. Por que ter uma organização para cinco ou dez pessoas no mundo que compreendem, que estão batalhando, que puseram de lado todas as coisas banais? E para as pessoas frágeis não pode haver organização nenhuma que as ajude a encontrar a Verdade, porque a verdade está dentro de todos; ela não está longe nem perto; está eternamente aí.

Organizações não podem torná-los livres. Nenhum homem de fora pode torná-los livres; nem o pode o culto organizado, nem a imolação de vocês mesmos por uma causa os torna livres; nem enfileirando-se em uma organização, nem lançando-se em trabalhos, os torna livres. Vocês usam uma máquina de escrever para escrever cartas, mas vocês não a colocam em um altar e a adoram. Mas é isto que vocês estão fazendo quando as organizações tornam-se seu principal interesse.

“Quantos membros ela tem?” Esta é a primeira pergunta que me fazem os jornalistas. “Quantos seguidores você tem? Pelo número deles julgaremos se o que você diz é verdadeiro ou falso”. Não sei quantos eles são. Não estou preocupado com isso. Como disse, se houvesse mesmo um que se tenha tornado livre, isso seria suficiente.

De novo, vocês têm a ideia de que somente determinadas pessoas possuem a chave do Reino da Felicidade. Ninguém a possui. Ninguém tem a autoridade para possuir tal chave. Essa chave é seu próprio eu, e no desenvolvimento e na purificação e na incorruptibilidade desse eu particular está o Reino da Eternidade.

Então vocês verão como é absurda toda a estrutura que vocês construíram, procurando ajuda externa, dependendo de outros para o seu consolo, sua felicidade, para sua força. Estes somente podem ser encontrados dentro de vocês mesmos.

Vocês estão acostumados a que lhes digam o quanto vocês avançaram, qual é sua posição espiritual. Quanta infantilidade! Quem além de você mesmo pode dizer se você está bonito ou feio por dentro? Quem além de você mesmo pode dizer se você é incorruptível? Vocês não são sérios nessas coisas.

Mas aqueles que realmente desejam compreender, aqueles que estão tentando encontrar o que é eterno, sem começo e sem fim, caminharão juntos com uma intensidade maior, serão um perigo para tudo que não seja essencial, para fantasias, para obscuridades. E eles se concentrarão, eles se tornarão luz, porque compreendem. Tal união nós devemos criar, e este é o meu propósito. Por causa dessa real compreensão, haverá verdadeira solidariedade. Por causa dessa verdadeira solidariedade – que vocês não parecem conhecer - haverá verdadeira cooperação da parte de cada um. E isto não devido à autoridade, não por causa da salvação, não devido à imolação por uma causa, mas porque vocês realmente compreendem, e então são capazes de viver no eterno. Isso é uma coisa mais elevada que qualquer prazer, que qualquer sacrifício.

Essas são, portanto, algumas das razões porque, após cuidadosa consideração durante dois anos, eu tomei esta decisão. Não foi um impulso momentâneo. Não fui persuadido a isso por ninguém. Não me persuadem em tais coisas. Durante dois anos tenho pensado sobre isto, morosamente, cuidadosamente, pacientemente, e agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que aconteceu ser eu seu Dirigente. Vocês podem formar outras organizações e esperar por outra pessoa. Não estou preocupado com isso, nem com a criação de novas prisões, novas ornamentações para esses cárceres.

Meu único interesse é tornar o ser humano absolutamente, incondicionalmente livre.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Queixas e Ressentimentos, por Eckhart Tolle



Queixar-se é uma das estratégias  prediletas do ego para se fortalecer. Cada reclamação é uma pequena história que a mente cria e na qual acreditamos inteiramente. Não importa se ela é feita em voz alta ou apenas em pensamento. Alguns egos que talvez não tenham muito mais com o que se identificar sobrevivem apenas com queixas. Quando estamos presos a um ego assim, reclamar, sobretudo de alguém, é algo habitual e, é claro, inconsciente, o que mostra que não sabemos o que estamos fazendo. Uma atitude típica desse padrão é aplicar rótulos mentais negativos às pessoas, seja na frente delas ou, como é mais comum, falando sobre elas com alguém ou até mesmo apenas pensando nelas. Xingar é o modo mais rude de atribuir esses rótulos e de mostrar a necessidade que o ego tem de estar certo e triunfar sobre os outros: "idiota", "desgraçado", "prostituta", todas essas afirmações definitivas contra as quais não se pode argumentar. No nível seguinte, descendo pela escala da inconsciência, estão os gritos. Não muito abaixo disso, se encontra a violência física.

O ressentimento é a emoção que acompanha a queixa e a rotulagem mental dos outros. Ele acrescenta ainda mais energia ao ego. Ressentir-se significa estar magoado, melindrado ou ofendido. Costumamos nos sentir assim em relação à cobiça das pessoas, à sua desonestidade, à sua falta de integridade, ao que estão fazendo no presente, ao que fizeram no passado, ao que disseram, ao que deixaram de dizer, à atitude que deviam ou não ter tomado. O ego adora isso. Em vez de detectarmos a inconsciência nos outros, nós a transformamos em sua identidade. Quem é o responsável por isso? Nossa própria inconsciência, o ego. Algumas vezes, a falta que apontamos em alguém nem mesmo existe. Ela pode ser um erro total de interpretação, uma projeção feita por uma mente condicionada a ver inimigos e a se considerar sempre certa ou superior. Em outras ocasiões, a falta pode ter ocorrido; contudo, se nos concentrarmos nela, às vezes excluindo todo o resto, nós a tornamos maior do que é. E dessa maneira fortalecemos em nós mesmos aquilo a que reagimos no outro. 

Não reagir ao ego das pessoas é uma das maneiras mais eficazes de não só superarmos nosso próprio ego como também de dissolver o ego humano coletivo. No entanto, só conseguimos nos abster de reagir quando somos capazes de reconhecer o comportamento de alguém como originário do ego, como uma expressão do distúrbio coletivo da espécie humana. Quando compreendemos que não se trata de nada pessoal, a compulsão para reagir desaparece. Não reagindo ao ego, muitas vezes podemos fazer aflorar a sanidade nos outros, que é a consciência não condicionada em oposição à consciência condicionada. Em determinadas ocasiões, talvez precisemos tomar providências práticas para nos proteger de pessoas profundamente inconscientes. Isso é algo que temos condições de fazer sem torná-las nossas inimigas. Nossa maior defesa, contudo, é sermos conscientes. Alguém passa a ser um inimigo quando personalizamos a inconsciência que é o ego. A não reação não é fraqueza, mas força. Outra palavra para a não reação é perdão. Perdoar é ver além, ou melhor, é enxergar através de algo. É ver, através do ego, a sanidade que há em cada ser humano como sua essência.

O ego adora reclamar e se ressente não só de pessoas como de situações. O que podemos fazer com alguém também conseguimos fazer com uma circunstância: transformá-la num inimigo. Os pontos implícitos são sempre: "isso não deveria estar acontecendo", "não quero estar aqui", "estou agindo contra a minha vontade", "o tratamento que estou recebendo é injusto". E, é claro, o maior inimigo do ego acima de tudo isso é o momento presente, ou seja, a vida em si. 

Não confunda a queixa com a atitude de informar alguém de uma falha ou de uma deficiência para que elas possam ser sanadas. Além disso, abster-se de reclamar não corresponde necessariamente em tolerar algo de má qualidade nem um mal comportamento. Não há interferência do ego quando dizemos ao garçom que a comida está fria e precisa ser aquecida -  desde que nos atenhamos aos fatos, que são sempre neutros. "Como você se atreve a me servir uma sopa fria?" Isso é se queixar. Nessa situação, existe um "eu" que adora se sentir pessoalmente ofendido pela comida fria e ele aproveitará esse fato ao máximo, um "eu" que aprecia apontar o erro de alguém. A reclamação a que me refiro está a serviço do ego, e não da mudança. Algumas vezes fica óbvio que o ego não deseja que algo se modifique para que possa continuar se queixando. 

Veja se você consegue capturar, ou melhor, perceber, a voz na sua cabeça - talvez no exato instante em que ela esteja reclamando de algo - e reconhecê-la pelo que ela é: a voz do ego, não mais que um padrão mental condicionado, um pensamento. Sempre que a observar, compreenderá que você não é ela, e sim aquele que tem consciência dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. Atrás, em segundo plano, está a consciência. À frente, se situa a voz, aquele que pensa. Dessa maneira você está se libertando do ego, livrando-se da mente não observada. No momento em que você se tornar consciente do ego, a rigor ele não mais será ego, e sim um velho padrão mental condicionado. O ego implica inconsciência. Ele e a consciência não podem coexistir. O velho padrão mental, ou hábito mental, pode sobreviver e se manifestar por um tempo porque tem o impulso de milhares de anos de inconsciência humana coletiva atrás de si. No entanto, toda vez que é reconhecido, ele se enfraquece.

Do livro "Um novo mundo - o Despertar de uma nova consciência."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Sobre a realização de nossos sonhos, por Prem Baba




Pergunta: Amigo Prem Baba, tenho a sensação de que perdi a batalha, porque existem sonhos não realizados na minha vida. Devemos persistir em tentar realizar nossos sonhos ou desistir é a melhor solução? A sensação é de um lutador que treinou bastante e não conseguiu vencer o campeonato. Eu sinto culpa, pois parece que foi por incapacidade minha. Não sei a quem quero agradar. Percebo que isso bloqueia o fluir da minha vida. De repente, uma inércia bloqueia os comandos e parece que não sou bom o suficiente. Algumas vezes, penso que quero agradar meu pai ou minha mãe. Como me livrar dessa necessidade? Como aceitar que, às vezes, não conseguimos realizar os sonhos?

Prem Baba: Esse é um assunto profundo. Porque muitas vezes, os sonhos são criados pela própria corrente de negação, que inclusive cria sonhos impossíveis de serem realizados. Essa corrente de negação é uma expressão da autopunição. Não realizar tais sonhos é uma forma de se punir. Então, muitas vezes, você estabelece metas muito elevadas como uma forma de se punir; como uma forma de afirmar para si mesmo: “Eu não sou competente. Eu não sou capaz”.

Essa é uma forma de alimentar o ‘eu’ sofredor, na forma da vítima. Essa vítima é uma entidade, que como tudo que é vivo quer continuar viva. E esse ‘eu’ vítima vive de quê? Vive dos fracassos e das derrotas; e de todos os dramas criados por elas. Ele vive de todas as fantasias de impotência criadas pela derrota.
Quer dizer que eu não posso ter uma meta elevada para me direcionar? Sim, você pode ter uma meta elevada. Mas nesse caso, você tem consciência de que se trata de uma indicação baseada na realidade da sua percepção. A sua intuição diz que é possível e assim, você tem aquela meta em mente e move-se naquela direção. Isso pode vir da sua corrente afirmativa, porque ilumina o seu impulso de vida, ou seja, dá força para viver.

Mas, quando estabelece uma meta elevada e por não atingi-la você se lança nos infernos da natureza, culpando-se e punindo-se, isso é uma estratégia do tirano interno, do ‘eu’ idealizado, que faz você criar uma meta idealizada tão distante que é impossível de atingir. E atingir tal meta significa: “Se eu for perfeito, eu vou conseguir o que eu quero” (que é ser reconhecido e ganhar atenção). Mas, como é impossível atingir essa meta, você acaba caindo no vale do sofrimento.

Não é difícil de identificar uma meta que nasce da sua corrente de afirmação ou da sua corrente de negação: quando nasce da afirmação, ela ilumina o seu impulso de vida, ou seja, dá vontade de viver e de fazer o que precisa ser feito. Quando nasce da negação, cada vez que não atinge a meta, você cai nos vales sombrios.
Há que se fazer uma avaliação desses sonhos não realizados. Você passou a vida treinando para vencer qual campeonato? Qual é a batalha que você está perdendo? Há que se avaliar se é algo possível de ser realizado ou se é uma fantasia criada pela sua corrente de negação, justamente para você se sentir impotente. Se for algo possível de ser realizado, mas você simplesmente não consegue, realmente precisamos ir por outro caminho; precisamos usar outro jeito de trabalhar com esses bloqueios.

Então, alguns sonhos precisam ser realizados e para isso, muitas vezes, é necessário identificar o que está te impedindo. Mas, você precisa abrir mão de alguns sonhos, porque eles não têm lastro na realidade. Qual é o seu caso? Quais são os sonhos guardados nos seus porões? Esses sonhos são formas de desejos e esses desejos agitam sua mente? Então, é preciso chegar a um acordo com eles.

Uma forma simples de lidar com isso é primeiro listar esses desejos sem vergonha de admiti-los. Coloque “preto no branco”, escreva em um papel para você não se enganar. Num primeiro momento, não julgue os seus sonhos e desejos, por mais que eu tenha falado sobre o absurdo de alguns sonhos. Mas, o fato é que muitas vezes, não há como saber se eles são absurdos ou não. Nesse primeiro momento, é muito importante que você os coloque para fora. E, a partir daí, faça um estudo na luz da razão. O que é um sonho completamente sem sentido? É apenas uma criação da sua corrente negativa, ou seja, uma estratégia do “eu” sofredor para sabotar a sua felicidade e para você ficar andando em círculos alimentando dramas.

Veja os sonhos que são passiveis de realização, mas que através da vontade consciente, você não está conseguindo realizar. Nesse caso, a estratégia de persistir na realização do sonho deve mudar, porque quanto mais tenta, mais você se frustra. O treinamento para vencer o campeonato não está adequado. Você pode colocar a força que for, mas não adianta, porque a vontade consciente não é suficiente para realizar; porque existem algumas coisas na sombra e você não consegue enxergar. Por isso, o seu trabalho deve ser identificar o que está no campo da sombra e sabota os seus sonhos. Comece a questionar: “O que em mim sabota a realização desse sonho?”

Você acredita ser impotente, simplesmente porque não está usando a estratégia adequada.

Vamos mostrar um exemplo bem simples, bem material e fácil de ser identificado: você tem como sonho ganhar tanto dinheiro por mês; você já verificou que não é impossível, pois está baseado na realidade, mas através da vontade consciente, você tenta, mas não consegue, acontecem “coisas” no meio do caminho, que não deixam você realizar essa meta. Naquele mês você consegue, mas surge uma despesa extra que leva todo o dinheiro embora. Então, você pensa que é impossível, quanto mais você se esforça para atingir essa meta, mais você se frustra. Atente para uma lei do psiquismo: quanto mais frenética e ansiosa é a sua busca pela realização de algo, através da sua vontade consciente (porém, você não consegue), maior é a sua negação e a sua inconsciência a respeito dessa negação.

Se a sua estratégia é tornar-se consciente dessa negação, não perca o seu tempo tentando mudar o mundo lá fora; não desperdice o seu tempo tentando mudar o outro, isso não é possível. Lembre-se de que tudo que está acontecendo lá fora é somente um reflexo do que está acontecendo dentro de você. Quer mudar lá fora? Tem que mudar dentro. Quer abrir o caminho lá fora? Então, abra o caminho dentro. Quer remover os obstáculos do seu caminho lá fora? Comece fazendo isso dentro.

Trabalhe para identificar os bloqueios que impedem você de realizar os seus sonhos. Você tem que começar de algum lugar, então comece de uma crença, que é um conhecimento emprestado (que neste momento eu estou te emprestando), até que se torne seu conhecimento, ou seja, até que se torne a sua experiência. Este conhecimento é perceber que se você não está conseguindo realizar tais sonhos, é porque existe um “não” dentro de você para esse sonho, por mais que no nível consciente o “sim” seja frenético e urgente. Se realmente há um impedimento, saiba que há um “não”. Esse “não” está dentro de você, mas está na sombra.
O que é sombra? É um nome que indica que está escondido e você não vê. Há que se trabalhar para trazer para o campo aberto.

A capacidade de realização nesse plano é infinita. E a permissividade desse plano também é infinita. Sendo assim, eu posso concluir que tudo é possível, desde que você diga um “sim” completo. Mas, se a mente diz “sim” e o coração diz “não”, você não vai atingir a meta. Pensamento, palavra e ação devem estar unidos na mesma direção. Experimente fazer um exercício: se você identificou o objetivo que quer atingir, diga para si mesmo: “Eu quero atingir essa meta com todas as forças do meu coração.” Veja se você consegue fazer isso. Veja se essa frase sai com força ou não. Observe para ver de onde sai essa afirmação. Quando você está inteiro você sente pulsar no seu corpo todo. Você é um bloco inteiro na mesma direção: pensamento, palavra e ação, estão unidos na mesma direção.

Assim você torna-se um raio de realização: Onde não? Por que não? Se você é um “sim” completo, você vai chegar onde tem que chegar e não vai criar uma meta impossível. Porque esse “sim” é uma manifestação da Inteligência Criadora; uma criação de Deus. Assim, você nunca vai criar uma meta impossível.

Durante certa fase da jornada, os desejos têm um papel importante, porque eles estão trabalhando inclusive para dissolver os “nãos” que ainda estão no sistema. Esses “nãos” estão sendo sustentados por pactos de vingança do passado, significa que ainda tem um passado no seu sistema que ainda não foi integrado. Durante uma fase, você terá que persistir nos sonhos, porque eles estão te ajudando a se curar das mazelas do passado. Eles estão a serviço do seu processo de desenvolvimento pessoal. Quando esse ‘eu’ estiver bem estruturado, tudo muda e começa outra história, é hora de largar os desejos (largar “bem largado”…). Porque você já cansou de brincar com esse brinquedo, mas isso não é uma resistência ou uma fuga.
Você não é incapaz de realizar os seus sonhos. Essa sensação de incapacidade ocorre, porque você não está usando a estratégia correta para atingir a meta e isso faz com que você se sinta impotente. É somente uma questão de ajuste. A princípio você pode tudo.

E o karma? O karma é o seu “não”; é o seu sentimento de não merecimento. O karma não é uma dívida de sofrimento, é uma dívida de aprendizado. Você aprende, ele desaparece. Há que se abrir para aprender a lição.

Os seus principais inimigos são: o orgulho, o medo e a obstinação. E o seu desafio é “transformar o limão numa limonada”. Você tem que transformar esses inimigos em seus mestres. É assim que você entrega o “anel” ao fogo de “Mordor” (referência ao filme Senhor dos Anéis). Assim que você vence Lúcifer (que é o treinador psicológico).

Se você se abre tudo fica muito simples. Realizar sonhos é algo muito simples, fácil e rápido. Eu vou te provar isso ainda. A mente é uma árvore de realização dos desejos. Ela está condicionada e por isso você não consegue usar esse poder. Quando você aprender, você verá que, assim que você pensa, tudo aparece. Você vai querer até largar esse poder e deixá-lo para Deus. É verdade! Eu não quero mais nada, deixo tudo para Deus! Ele que fale o que é bom para mim.

Abençoado seja cada um de vocês. Que possamos chegar a um acordo com o desejo.

Sri Prem Baba

Texto original no link: http://www.prembaba.org.br/india2012/po/?p=1121&d=02.02.2012

Sobre Deus, por Prem Baba


Deus é Um, mas se manifesta de infinitas maneiras, de acordo com a necessidade de cada povo e de cada pessoa.É interessante como o ser humano se relaciona com Deus: de acordo com o seu grau de consciência você percebe Deus de uma maneira. Somente a experiência direta de Deus pode iluminar a sua fé. E, é essa fé que te liberta do medo da morte.

Durante uma fase da evolução da consciência, nós acreditamos que Deus está fora. Esse “Deus” é uma projeção dos nossos pais. Nós desenvolvemos uma crença nesse Deus, mas em algum momento essa crença é questionada. Por mais que a crença promova experiências místicas, essas ainda estão no campo da mente. Você se relaciona com Deus, como se estivesse relacionando-se com uma autoridade fora de você. É uma figura que você tem que adular, para obter os seus desejos realizados, a qual você teme, porque ela pode ficar contrariada com você, caso você não corresponda às expectativas. Você oscila entre essa adulação (que é uma fé cega), e o medo, que também é um fruto da fé cega. Por que fé cega? Porque é fé em uma ideia criada pela mente.

Essa ideia nasce em algum momento da jornada evolutiva, quando a entidade humana começa a questionar os mistérios da vida. Nos primeiros estágios da evolução, a entidade não questiona esses mistérios, ela é movida somente pelo instinto de sobrevivência. Ela vive no presente, mas não no presente eterno, e sim num presente determinado pelos sentidos. Até que em dado momento, ela começa a prestar atenção nos mistérios da vida. O que são esses mistérios? O nascer do sol; o por do sol; a chuva que cai; uma flor que nasce; uma pessoa que morre; uma criança que nasce; uma pessoa que adoece e outra que se cura.
Em dado momento, o ser humano começa a questionar como isso acontece. “Será que existe um criador para tudo isso?” 

Ele se sente muito pequeno diante de tanta grandeza, e precisa acreditar que alguém criou isso. Quem criou? A maior autoridade possível. Mas, qual é a referência de autoridade que ela tem? Quem a criou, ou seja, os pais. Assim, ela começa a projetar nessa ideia de Deus a imagem dos pais. Se ela teve pais bons, amáveis e benignos, assim será Deus para ela. E, se ela teve pais tiranos e cruéis, é assim que ela vai enxergar Deus. Essa projeção é inconsciente, ela não consegue fazer relação entre essa ideia de Deus e os núcleos da personalidade. Mas, se você observar, perceberá que tais pessoas se relacionam com esse Deus como uma criancinha se relaciona com os pais. É uma criancinha que precisa adular os pais para conseguir o que quer ou teme os pais porque pode ser castigada. Esse Deus está fora. Eu costumo dizer que ele está lá em cima, no céu, muito distante, mas ao mesmo tempo, muito perto, olhando de binóculo, para ver os pecados que você comete aqui na Terra.

Em algum momento, você começa a questionar esse Deus. E muitos nesse momento, entram em uma profunda crise; entram no deserto do ceticismo, porque descobrem que esse Deus não existe. Era somente uma criação da mente. Até que isso faça com que a entidade comece a olhar para dentro e comece a assumir a responsabilidade. Assim, vagarosamente, comece a se abrir para ter uma experiência direta de Deus. Não um Deus que é uma ideia criada pela mente, mas sim de Deus que é a Realidade suprema, que age através de cada um de nós e está em todos os lugares. É a inteligência criadora que está agindo em tudo o que é vivo.

A essência dessa vida é aquilo que chamamos de amor, portanto em síntese Deus é amor. Viver em Deus é viver em amor. Esse amor se revela através da Presença e a Presença é o resultado da quietude da mente. A quietude da mente traz a paz e a paz traz alegria. A alegria traz o amor, e o amor abre os portais do infinito e derruba as barreiras da separação e, assim, você vê Deus e o amor em tudo.

Portanto, o foco deve estar em aquietar a mente. Identifique aquilo que agita a sua mente e vá, pouco a pouco, eliminando esses fatores que a agitam. O que agita a mente? O desejo. Por isso, você precisa chegar a um acordo com ele. Segundo um professor da floresta, o Padrinho Sebastião: O desejo é algo que se vive “bem vivido”, ou se larga “bem largado”. Há que se chegar a um acordo com o desejo.


Sri Prem Baba

Texto original no link: http://www.prembaba.org.br/india2012/po/?p=1121&d=02.02.2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sobre o pensamento, do livro "Os muitos caminhos da vida", de Val Eom


"O pensamento tem uma força que nós ainda desconhecemos aqui na nossa materialidade, embora haja já bastantes estudos sendo feitos em instituições respeitáveis e universidades.  Como sabemos, ele propaga-se por ondas, mas tem também uma componente material, por mais estranho que isso possa parecer-nos, que se plasma, que pode ser mensurável em determinadas condições.

Essa substância mental, produzida pelos nossos pensamentos e dos demais, envolve-nos permanentemente,  nela nos nutrimos. Quando pensamos, o pensamento é gerado por nós, obviamente, mas sujeito às influências, quase sempre bastante grandes, do resultado dos pensamentos que existem a nosso redor, ou seja, por essa substância mental a que me referi anteriormente. Dito doutra maneira, ele é fonte geradora de formas, comumente designadas como formas-pensamento e algumas vezes encontramos também, complementarmente, como formas-sentimento. Por sintonia, então, a essência boa ou má dos nossos pensamentos e sentimentos interage com outras formas-pensamento de igual natureza que existam no ambiente, criadas ou não por nós, e ficam como que amplificadas.

Se nós nos mantivermos na mesma frequência, então aquilo que nós geramos regressa a nós, só que, ampliado. Daí a preocupação que devemos ter com os pensamentos, que devem ser sempre elevados, sempre otimistas. Bons pensamentos regressam a nós de forma mais intensa, e criam um ambiente psíquico saudável. O oposto também é verdadeiro, e nada aconselhável: maus pensamentos, pessimismo, derrotismo, más intenções, paixões baixas, etc, criam condições más para nós e para quem nos rodeia. Acontece também que, ao criarmos essas formas-pensamentos estamos, por assim dizer, a materializar e a tornar visível o produto da nossa mente, e assim atraímos Espíritos que nutram pensamentos da mesma natureza. Essas formas-pensamento criadas e materializadas por nós, acompanham-nos durante muito tempo, até que consigamos, nós próprios, mudá-las, o que leva a que, por vezes, mesmo depois de desencarnar elas continuem a perturbar os Espíritos que as criaram.

O pensamento, agindo sobre recursos fluídicos, tem também a capacidade de criar ou plasmar objetos, roupas, móveis utensílios dos mais diversos, o que seja. A essa capacidade de moldagem é dada genericamente a designação de ideoplastia. A mente também é o centro que, por ação da nossa vontade e dos sentimentos, desejos, emoções que nutrimos, comanda e dá diferente forma e natureza ao pensamento. Assim, a massa mental pode ter trajeto, impacto, estrutura e massa distintas, variando em função do tipo de sentimento, de desejo, de emoção. Mesmo enquanto encarnado, a pessoa que produz e se faz envolver com energia negativa, com baixa vibrações, pode projetá-la para outros seres e prejudicar muito. Aparece nas diferentes culturas referida distintamente como mau olhado, ou como quebranto, inveja, feitiço mental, etc. Nestes casos, e uma vez que já vimos que isso é resultado da ação dos sentimentos, dos pensamentos, da vibração, em suma, da energia, então o antídoto deve ser de igual natureza, isto é, bons pensamentos, bons sentimentos, vibração elevada, muita oração, amor, caridade, porque estes anulam os efeitos nocivos que daí pudessem resultar.

O pensamento é, pois, a força motriz, geradora, que associada à vontade e ao atuar sobre a matéria com alguma plasticidade dá origem a formas, a corpos, cria situações, imagens, transmite energia, enfim, o pensamento é um manancial onde as envolventes energéticas, psíquicas e espirituais vão permanentemente beber.

Se, quando mencionamos o pensamento, o entendermos não apenas no sentido abstrato, mas e principalmente, como origem e reflexo da elevação ou baixeza moral, da vibração e da energia por outras palavras, facilmente compreenderemos que eles, os pensamentos, enquanto expressão da mente, dos sentimentos, emoções e desejos de vingança, de profundo ódio e rancor, gerados pelo próprio Espírito e amplificados com o que de suas vítimas lhe é dirigido, têm um impacto grande sobre a sua forma exterior, e sua energia envolvente e sobre sua psique. ... Podemos, portanto, encontrar e viver situações diferentes enquanto encarnados e depois da morte, dependendo, como já sabemos, de nós próprios, do que fomos ontem e do que somos hoje."

terça-feira, 23 de outubro de 2012

APRENDENDO A SILENCIAR A MENTE, por Osho

A verdadeira meditação é sentar-se sem fazer nada — não usar seu corpo nem sua mente. Se você começar a fazer alguma coisa, ou você entrará em estado contemplativo ou estará concentrado, ou executará uma ação — de toda forma, estará movendo-se para fora de seu centro.

Quando você não estiver fazendo absolutamente nada, seja física ou mentalmente, ou em qualquer outro nível, quando toda atividade houver cessado e você estiver apenas sendo, isso é meditação.

Não a pratique, não a faça.
Apenas compreenda-a.

Sempre que você conseguir, pare todo o resto e encontre tempo para apenas SER.

Pensar também é fazer, concentrar-se também é fazer, contemplação é fazer. Mesmo que seja um único momento em que você não esteja fazendo nada e esteja apenas em seu centro, completamente relaxado, isso é meditação.

E quando você se acostumar, poderá ficar nesse estado por quanto tempo quiser.
Com o tempo, poderá ficar nesse estado durante as 24 horas do dia se desejar.

Após ter experimentado esse estado de tranquilidade, então, aos poucos, você começará a fazer coisas, mantendo-se alerta para que seu ser não seja perturbado. Essa é a segunda parte da meditação.

Primeiro, aprender a simplesmente ser, depois aprender pequenas ações: limpar o chão, tomar banho, mas sempre mantendo-se no centro.

Por exemplo, você pode estar lendo esse post, mas sua meditação não será perturbada.
Pode continuar falando, mas em seu centro não há sequer um ruído.
Há apenas silêncio, silêncio absoluto.

A meditação não é contra a ação, pois sua vida continua e, na verdade, torna-se mais intensa, mais cheia de alegria, com maior clareza, mais visão e mais criatividade. Ainda assim, você está nas nuvens, um observador nas montanhas, apenas vendo o que ocorre a seu redor, em seu CENTRO.

Você não é aquele que faz, mas sim o que observa.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ciência do Bem Viver, por Joanna de Angelis através de Divaldo Franco


Tranquilamente, confiante, avança, passo a passo, pelo caminho da evolução. Não busques, nem fujas dos fenômenos da existência física.
Intenta ser o controlador dos teus impulsos e sentimentos, de maneira que o insucesso não te infelicite nem o êxito te exalte.
Na paz interior descobrirás a libertação das dores, porque lograrás vencer as paixões.
Utilizando-te de uma consciência equânime, aceita as ocorrências positivas e negativas com a mesma naturalidade, sem sofreguidão nem indiferença.
Mantém-te interiormente livre em qualquer circunstância, adquirindo a ciência verdadeira do viver.
A ilusão fascina, mas se desvanece.
 A posse agrada, porém se transfere de mãos.
 O poder apaixona, entretanto, transita de pessoa.
 O prazer alegra, todavia é efêmero.
A glória terrestre exalta e desaparece.
O triunfador de hoje, passa, mais tarde, vencido...
A dor aflige, mas passa.
A carência aturde, porém um dia se preenche.
A debilidade orgânica deprime, todavia, liberta da paixão.
O silêncio que entristece, leva à meditação que felicita.
A submissão aflige, entretanto engrandece e enrija o caráter.
O fracasso espezinha, ao mesmo tempo ensina o homem a conquistar-se.
Todas as situações no mundo sensorial passam, mudam de posição e de forma.
A essência da realidade, porém, permanece sempre a mesma.
Nada é definitivo na aparência.
Apenas o que tem valor intrínseco é duradouro.
Quem, espontaneamente, se abstém dos sentidos e das exterioridades, sem mágoa nem frustração, encontrou a ciência de bem viver.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Se, por Prof. Hermógenes




Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…

Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.



http://www.youtube.com/watch?v=dD7lBownfBU

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Trecho do livro "A Arca", por Jair Tércio


 
"Ventava demasiadamente, e sentados num ambiente divino de uma serra, o Iluminado e a humanidade, contemplavam a montanha diante deles. Num determinado momento, ela perguntou-lhe: o que faz com que a montanha toque o céu? 

O Iluminado respondeu: se podemos explicar, então não é. Aquiete e experimente. Aprenda que a experiência diz muito; e se é direta, correta e completa, diz tudo. Lembre-se que, aquele que contempla busca a essência; quem contempla caminha para o Santuário da Luz que lhe é interior; quem contempla tende a encontrar o Deus que lhe é íntimo. Portanto, deixe o seu coração alegre com isto. 

A humanidade reagiu: então você já não dá mais atenção à lógica e à razão. 

Neste momento, passava, voando, uma borboleta. 

Borboleta! Chamou o Iluminado – como é que você faz para não perder seu destino com tamanha ventania? 

A borboleta respondeu: nunca pensei nisso. 

Que tal pensar agora, pois nossa amiga aqui gostaria de ouvir uma explicação! 

A borboleta olhou para suas asas e começou: bem... eu fixo o meu objetivo... não, não é bem isso... tenho que aproveitar o vento... 

Durante um tempo, a borboleta tentou explicar como fazia, e a medida que tentava, ia confundindo-se cada vez mais. Quando quis continuar seu caminho, já não podia mais voar. 
Daí ela disse: me desculpem, pois na preocupação de lhes mostrar como voo, perdi o equilíbrio, tenho que retornar ao que estava fazendo. 

Isso é o que acontece com quem deseja explicar tudo, principalmente, quando devem estar somente agindo. Depois disso a borboleta calou-se e continuou o seu caminho. 

O Iluminado só olhou para a humanidade que esclarecida pôs-se a experimentar.

domingo, 16 de outubro de 2011

A Cegueira Necessária, por Camilla Bomfim



Um dia quero aprender a não enxergar
Neste mundo no qual penso que tudo é real
Quero ser completamente cega para a ilusão
Quero ver a realidade com o olhar do coração
 
Um dia quero não ver meus amigos, minha família, meus pais
Quero não olhar ninguém, nem mesmo me enxergar
Quero somente amar e nada mais
Quero ver para crer que isso aqui não é real

Um dia quero não enxergar as pessoas como elas estão
Quero deixar de ver os papéis, o total disfarce
Quero despertar para ver quem verdadeiramente somos
Quero ver Deus em toda parte

Um dia, quando eu fechar meus olhos
Deixarei de ver tudo o que me faz ser cega
E enxergarei somente Deus e sua essência
Na humanidade já desperta.

domingo, 11 de setembro de 2011

Um modo de ser, autoria desconhecida.


Transcrevi essa poesia num pedaço de papel quando eu tinha 16 anos. Na época ela tocou profundamente o meu coração, mas eu ainda não entendia a profundidade de suas palavras. Esse papel ficou perdido por aí, durante 12 anos e só agora eu o encontrei e pude reler essas palavras que novamente me tocaram o coração, mas agora com um alcance muito mais absoluto e essencial. Desconheço a autoria, mas a publico aqui agora em agradecimento, respeito e admiração a seu autor, que conseguiu retratar um sentido da vida simples e belo, ignorado pela maior parte de nós.

A poesia não está apenas no encaixe harmonioso de palavras, mas nos belos atos, na forma simples de se viver, na energia amorosa que a tudo envolve, na essência do que realmente somos. Muitos poetas nem sabem escrever, mas vivem poesia a cada minuto de suas exietências. Outros escrevem belos amontoados de palavras, mas não experimentam a poesia em sua forma real e profunda: o viver simples e iluminado, muita vezes silencioso no dia a dia, na arte de se viver amando sem esperar nada em troca.


Uma poesia real, cheia de energia e vida:



"Todos os dias viverei da vida um tanto:

Mas não demais, antecipando o que não veio,

Nunca de menos, precipitando o desencanto.

Todos os dias serei inteira, plena, forte e iluminada,

E tudo quanto o que me torno,

Quando alinho minha alma aos contornos do Sagrado:

No amor, completa;

Na palavra, certeira;

No trabalho, agradecida;

No viver, simplificada

E no carinho, doce

Tecendo e refazendo laços.

Seja esta a força que me leve e que conduza meus abraços.

Companheira da Verdade, deixo sempre que ela fale,

Pois no silêncio não há nada que a oculte ou que a cale.

Todos os dias serei um pouco menos de mim, no fundo;

E sempre mais um tanto assim: comum, do mundo."

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Desempenhando papéis, por Camila Nunes


Vemos a cada dia aumentar a busca pelo autodescobrimento. Mais e mais pessoas no mundo voltam a sua atenção para dentro numa frenética e constante inclinação, advinda não se sabe ao certo de onde, mas que as impelem a questionarem sobre a sua própria origem, sobre o porquê de estarem aqui e para onde se irá quando for chegado o momento. Nas ruas inúmeros cartazes alertam para o retorno do Mestre, notadamente os de conteúdo protestante; arquivos oficias outrora secretos, agora nos são revelados por variados governos no mundo; há pouco, o Vaticano declarou através de seu canal oficial a existência de vida extraterrestre. Os fatos são tantos e inéditos que num passado próximo não se vislumbrariam tais ocorrências senão em sonhos. E tudo ocorre com uma velocidade inacreditável.
Ditos fatos e muitos outros, dizem a Espiritualidade, sinalizam apenas o fim de uma era e o começo de outra. Há mais de 5 mil anos os toltecas já previam essa inclinação da humanidade para a busca da espiritualidade, registrando suas observações no calendário astronômico, posteriormente denominado de calendário maia, um legado daquela civilização para esta que se imortalizou nas areias do tempo.
Mas o que é ser alguém espiritualizado? E o que é ser alguém espiritualista?
Parecem perguntas difíceis, mas não são.
Há inúmeros conceitos arraigados no consciente coletivo que levam a distinguir alguém espiritualizado de outrem que não seja tanto ou que não seja de jeito nenhum. Um deles é alguém se comportar de maneira mansa, tranqüila, não beber, não fumar, não sair...levar uma vida de renúncias e abnegações por vezes vividas de forma prazerosa, por vezes tortuosas, mas aparentemente praticadas.
E vão rotulando essa ou aquela pessoa com o status de iluminado e visualiza-se em torno dessa figura uma auréola daquelas concedidas aos santos.
Criam e recriam parâmetros com base em referências terrenas e se satisfazem com elas. Passam pela existência como se uma vida imaculada tivessem vivido e não se atentam para as possíveis surpresas que advém quando se descobre que se viveu uma vida que não era a sua própria. Quão grande sofrimento é dar-se conta de que a vergonha de ter sido quem era, impediu de acender a luz que passou a vida inteira acreditando ter despertado ou tentando fazê-lo.
Muitos são os que fogem de sua realidade interior. Poucos são os que assumem o que vêm e não buscam esconder-se dos outros.
Esta não é uma carta aberta ao mal, à prática desenfreada de nossas tendências e inclinações. É um alerta a necessidade imperiosa de percebê-las, compreendê-las, e permiti-las ou não, conforme o caminho que o ser decidir trilhar.
Para se reformar uma casa é necessário conhecer a sua estrutura, os pontos de fragilidade, aqueles que podem ser mexidos sem comprometer as demais, e traçar um plano. Por onde começar a reforma, o que se vai reformar, se ela toda ou parte dela, os materiais a serem empregados, quanto se irá gastar e o tempo necessário à consecução da obra.
Da mesma forma se processa a reforma em nosso interior. Cada tendência deve ser criteriosamente analisada a fim de se perceber a necessidade de mantê-la ou substituí-la. Os pontos principais também devem ser escolhidos como tais. O exercício da tolerância, a aceitação e a paciência com aquilo que ainda não pode ser alterado, seja por razões de apego, maturidade, ou simplesmente por uma questão de prioridade, têm importância primordial neste processo.
As pessoas querem reformar-se de vez e não dão conta que o processo é lento. Exigem mudanças bruscas e não aceitam mais certas tendências que passaram milhares de anos a cultivarem carinhosamente pela repetição de hábitos em seu interior, exigindo de maneira violenta a sua retirada imediata.
E assim vão vivendo desempenhando papéis; de mãe, de pai, de irmão, de amigo, de filho, de alguém espiritualizado ou em vias de sê-lo, enfim. Inúmeros são os papéis e vários são os cenários para representá-los, todavia, esquecem-se de representar o papel mais importante na história pessoal de cada um, o de ser o SER cujo papel assume ou, utilizando o trocadilho, assumir o ser por trás do personagem representado.
Pare e escute o silêncio que dele emana. Sinta a sua voz expressa no silêncio que há por trás de tudo que você conhece ou pensa saber. Você é alguém que a sua própria consciência desconhece. O seu maior papel é descobrir-se atrás dos bastidores de sua peça teatral. Olhá-lo de frente e reconhecê-lo por inteiro; aceitar e amar o espectro que surge, opaco e encolhido de tanto ser escondido.
Descobrir-se é o primeiro passo para alguém que busca o caminho da iluminação. Este talvez seja o papel mais difícil de ser encenado; também o mais glorioso, eis que conduz ao regozijo perene semelhante ao que sente o descobridor de um grande tesouro.
Mostrar-se sem receio de julgamentos. Assumir-se como individualidade em construção. Reconhecer as virtudes e expressá-las; olhar para as virtudes ainda não conquistadas e esforçar-se por adquiri-las. Não temer em expressar-se; primeiro passo da escalada da melhora íntima.
Não há como Espiritualizar-se violentando a si mesmo com mudanças bruscas de hábito impostas meramente por ordenações partidas do cérebro físico. Informação e consciência são coisas completamente diversas. De nada adianta a renúncia se ela violenta ao renunciante. As mudanças devem partir de uma sugestão amorosa advinda da consciência e não de uma mera tentativa cerebral em se adequar a parâmetros considerados corretos. Isto vale para todos os níveis. Há que se ter prudência e imposição de limites, mas sobretudo discernimento e autoamor suficientes para se saber até onde vai este “limite”.
A cada tentativa verifica-se que o “limite” expande-se. E quando menos se espera o corpo está pronto para a prática dos anseios da alma.
Olhem para dentro enquanto vivem e dêm passos suportáveis às suas próprias pernas. No entanto, exercitem-se diariamente para que estas pernas adquiram cada vez mais resistência a fim de que em breve possam não só darem grandes passos, mas pularem em direção ao despertar da consciência.