sábado, 26 de abril de 2014

Minha liberdade espiritual.



Em primeiro lugar, quero deixar muito claro que NÃO ESTOU VINCULADA A NENHUMA RELIGIÃO, NENHUMA SEITA, NENHUMA DOUTRINA, NENHUM MOVIMENTO ESPECÍFICO QUE CULTIVE SEGUIDORES OU DEVOTOS. Não que eu tenha alguma coisa contra tais coisas. Não tenho. Aliás, até acho que sob uma certa perspectiva e em alguns casos, a religião é necessária e extremamente saudável à humanidade. Aos que me perguntam porque eu não me filio a uma religião, já que fui criada em preceitos religiosos: acredito que cada pessoa segue seu caminho vinculado àquilo a que precisa se vincular, e as filosofias dogmáticas definitivamente não estão no meu trajeto de agora. 

Isso não significa que eu esteja apartada do lado espiritual de minha vida, muito pelo contrário. Levo muito a sério questões filosóficas e espirituais. Sempre foi assim. Decidi, por livre e espontânea vontade, me batizar com Testemunha de Jeová aos 10 anos de idade por acreditar, de coração, que aquele era o caminho para o amor divino. Aos 20 me desliguei desta religião por perceber que meu caminho era outro. Não entrarei aqui no mérito dessa questão, até porque, respeito imensamente a religião em que fui criada, além de ter imenso afeto por muitos que ainda a professam.

Meu caminho é a espiritualidade livre e consciente. Lembro-me de observar o céu, introspectiva, analisando todos os pontos que me levavam a querer mudar o rumo espiritual da minha vida e ali, em silêncio, olhando o infinito, percebi que não era necessário que houvesse nenhum intermediário entre "Deus" e eu. E não há. Como dizia Leon Tolstói, "a minha religião é o Amor por todos os seres". E assim é.

Sim, eu acredito em reencarnação, mas isso não me faz espírita. Pratico meditação, e isso não me faz budista. Escuto mantras, e isso não me faz hindu. Tenho uma imagem de São Franscisco, e isso não me faz católica. Gosto de ler sobre Jesus e citá-lo sempre em minha vida, e isso não me faz evangélica. Gosto dos decretos da chama violeta, e isso não me faz teosofista. Acredito na existência de vida inteligente em outros planetas, e isso não me faz ufóloga. Pratico a não-violência em todos os âmbitos e em todos os minutos da minha vida, e isso não me faz tolstoiana. Acredito que o universo inteiro está dentro de nós e que é a isso que devemos dar atenção, e isso não me faz gnóstica. Prezo a minha liberdade de expressão, de sentimento e de pensamento acima de qualquer coisa, e isso não me faz anarquista. Fomento a reflexão, incentivo a fé raciocinada, acho saudável o questionamento, e isso não me faz descrente.

O respeito é a base do meu movimento por este planeta. Uma opinião diferente da minha não tem que ser errada; é apenas diferente. Luto por um mundo melhor com a única arma que acredito ter eficiência nessa batalha: a edificação do Amor incondicional dentro de mim mesma. A única transformação possível de ser feita é a interior, e é aí que está a beleza disso tudo: essa é a única forma de se mudar o mundo. Por quê? Por algumas razões simples: se um time ganha um jogo, não interessa quem marcou o ponto. Estamos todos num mesmo barco, somos de alguma forma interconectados e a física moderna já nos prova isso por meios racionais e lógicos. Portanto, cada indivíduo que edifica em torno de si o belo, ilumina um pouco mais a vida de todo o planeta. Além disso, é um fato já ensinado por todos os mestres e sábios que já pisaram por este mundo que só se ensina pelo exemplo. Jesus nada impôs a ninguém. Ele viveu sua filosofia, e aqueles que se interessaram, aprenderam observando suas ações. Ações...porque palavras o vento leva.

Meu caminho é o interior. Esse é o caminho que tem feito com que eu assuma a minha responsabilidade perante esta vida, que faz com que eu me esforce a cada minuto do meu dia para ser uma pessoa melhor, para amar incondicionalmente, para aprender sempre e cada vez mais com cada pessoa que aparece em meu caminho. Minha responsabilidade "fora de mim" é com o respeito e amor aos outros. Gentileza, tolerância e simplicidade são virtudes necessárias para uma consciência pacificada e pacífica. Exercito-me, todos os dias, na arte de amar sem esperar nada em troca, de aceitar as pessoas como elas são, de não ser tão dura comigo mesma, de estar feliz no aqui e agora, grata pelo que a vida me dá de bom.

Não quero convencer ninguém de nada, mas gostaria que as pessoas entendessem que não importa o nome que você dá a Deus, a religião que você professa, se você acredita ou não em vida após a morte, se acha ou não que existe reencarnação. O valioso de nossa existência é o Amor que edificamos em nosso próprio íntimo, são as boas sementes que lançamos em outros continentes de alma com nossa atitude amorosa. Essa é a base, isso é o fundamental. Sem essa prática, nenhuma filosofia espiritual ou dogmática tem valor.

Podem me ter como utópica demais, mas trabalho para fazer desse mundo um lugar melhor seguindo a orientação da parte mais bela de mim, sempre com muito respeito a tudo a minha volta. Faço a minha parte apenas, sem intenção de a ninguém convencer. Nutro apenas um desejo sincero de que as pessoas acreditem em ser possível ainda fazer com que a vida humana embeleze esse planeta, fazendo isso com suas prórpias vidas, seja em que religião ou doutrina for. Que a luz do Amor, puro e simples, se espalhe pelas pessoas, e que essa idéia abra nossos corações para o respeito e a tolerância com o que não se harmoniza com nossas convicções pessoais!!!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sobre liberdade espiritual e verdade, por Krishnamurti.



Palestra proferida por Krishnamurti no evento de encerramento da Ordem Estrela do Oriente, fundada em 1911, e da qual ele foi nomeado Dirigente. Em 3 de agosto de 1929, dia da abertura do Acampamento Anual da Estrela, em Ommen, Holanda, Krishnamurti dissolveu a Ordem diante de 3.000 membros. Abaixo está o texto completo da palestra que ele deu naquela ocasião:

"O diabo e um amigo dele estavam descendo a rua quando viram à sua frente um homem se agachar e pegar algo do chão, dar uma olhada e colocar no bolso. O amigo perguntou ao diabo: 
_ Que foi que o homem pegou?
_ Ele pegou um pedaço da verdade - respondeu o diabo. 
_ Isso é um negócio muito ruim pra você, então. - disse o amigo dele. 
_ Oh, de modo algum! - retrucou o diabo - Vou deixar que ele a organize."


Eu afirmo que a Verdade é uma terra sem caminhos, e vocês não podem alcançá-la por nenhum caminho, qualquer que seja, por nenhuma religião, por nenhuma seita. Este é o meu ponto de vista, e eu o confirmo absoluta e incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem pode qualquer organização ser constituída para conduzir ou coagir pessoas para qualquer senda particular. Se vocês logo compreendem isso, verão o quanto é impossível organizar uma crença. Uma crença é algo puramente individual, e vocês não podem e não devem organizá-la. Se o fizerem, ela se torna morta, cristalizada; torna-se um credo, uma seita, uma religião a ser imposta aos outros. Isto é o que todos estão tentando fazer mundo afora.

A Verdade é restringida e usada como joguete por aqueles que são fracos, por aqueles que estão apenas momentaneamente desgostosos. A Verdade não pode ser rebaixada, mas, em vez disso, deve o indivíduo fazer esforço para ascender até ela. Vocês não podem trazer o topo da montanha para o vale. Se querem atingir o cume da montanha, vocês devem atravessar o vale e escalar as escarpas sem medo dos perigosos precipícios.

Portanto, esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, pela qual a Ordem da Estrela deva ser dissolvida. Nada obstante, vocês provavelmente formarão novas Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações em busca da Verdade. Eu não quero pertencer a nenhuma organização do gênero espiritual, por favor, compreendam isto. Eu faria uso de qualquer organização que me levasse a Londres, por exemplo; isso é um tipo bastante diferente de organização, meramente mecânica, como o correio e o telégrafo. Eu usaria um automóvel ou um vapor para viajar, esses são apenas mecanismos físicos, os quais nada têm a ver com espiritualidade. Novamente, eu sustento que nenhuma organização pode conduzir o homem à espiritualidade.

Se uma organização for criada com esse propósito, ela se transforma numa muleta, um ponto fraco, uma dependência, incapacita o indivíduo, e impede-o de crescer, de estabelecer sua singularidade, que reside na descoberta que ele deve fazer – por si mesmo - daquela Verdade absoluta, não condicionada. Esta é, portanto, outra razão pela qual eu decidi, uma vez que aconteceu de ser eu o Dirigente da Ordem da Estrela, dissolvê-la. Ninguém persuadiu-me a tomar esta decisão. Isto não é nenhuma grande façanha, porque eu não quero seguidores, deixo isso claro. No momento em que vocês seguem alguém, deixam de seguir a Verdade. Não estou preocupado em saber se vocês prestam atenção ao que eu digo ou não.

Eu quero fazer determinada coisa no mundo e eu vou fazê-la com resoluta concentração. Estou interessado somente numa coisa essencial: libertar o ser humano. Eu desejo libertá-lo de todas as prisões, de todos os temores, e não fundar religiões, novas seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então vocês naturalmente me perguntam por que eu sigo mundo afora, falando continuamente. Eu lhes direi por que razão eu faço isso: não porque eu deseje seguidores, não porque eu queira um grupo especial de discípulos especiais. (Como os homens gostam de ser diferentes de seus semelhantes, por ridículas, absurdas e banais que suas distinções possam ser! Eu não quero encorajar esse disparate). Não tenho discípulos ou apóstolos, quer na terra quer no reino da espiritualidade. “Não é a sedução do dinheiro nem o desejo de viver uma vida confortável o que me atrai. Se eu quisesse uma vida confortável eu não teria vindo a um acampamento ou a viver num país úmido. Estou falando francamente porque quero isso estabelecido de uma vez por todas. Não quero essas discussões pueris ano após ano.

Um jornalista que me entrevistou considerou uma façanha o ato de dissolver uma organização na qual havia milhares e milhares de membros. Para ele isso foi um grande feito, porque ele disse: “O que você fará doravante, como você viverá? Você não terá nenhum séquito, as pessoas não mais o ouvirão”. Se houver apenas cinco pessoas que ouçam, que tenham suas faces voltadas para a eternidade, isso será suficiente. De que serve ter milhares de pessoas que não compreendem, que estão totalmente imersas em preconceito, que não querem o novo, mas que até mesmo traduziriam o novo para satisfazerem seus próprios eus estéreis e estagnados? Se eu falo de forma contundente, por favor, não me entendam mal, não é por falta de compaixão. Se vão um cirurgião para uma operação, não seria bondade da parte dele operar mesmo que lhes cause dor? Da mesma forma, se eu falo de maneira direta, não é por falta de afeto verdadeiro – pelo contrário.

Tal como disse, tenho um só propósito: tornar o homem livre, impulsioná-lo para liberdade, auxiliá-lo a romper com todas as limitações, por que somente isso lhe dará felicidade eterna, lhe dará a incondicionada realização do ser.

Porque eu sou livre, incondicionado, completo, não a parte - não a relativa, mas a Verdade inteira que é eterna – eu desejo que aqueles que buscam compreender-me sejam livres: não que me sigam, não que façam de mim ma prisão que se transforme em religião, uma seita. Ao contrário, eles deveriam estar livres de todos os medos, do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida.

Assim como um artista pinta um quadro porque se deleita com essa pintura, porque ela é sua auto-expressão, sua glória, seu bem-estar, assim faço isso, e não porque eu queira algo de alguém.

“Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a atmosfera de autoridade, a qual vocês acham que os conduzirá à espiritualidade. Vocês pensam e esperam que alguém possa, por meio de seus extraordinários poderes – um milagre – transportá-los a esse reino de eterna liberdade que é a Felicidade. Toda sua concepção de vida está baseada nessa autoridade".

Vocês têm-me ouvido por três anos, sem que qualquer mudança tenha ocorrido, exceto em uns poucos. Analisem agora o que eu estou dizendo, sejam críticos, de forma que vocês entendam radicalmente, fundamentalmente. Quando vocês procuram uma autoridade que os conduza à espiritualidade, vocês são automaticamente instados a construir uma organização em torno daquela autoridade. Pela simples criação de tal organização, a qual, vocês pensam, auxiliará essa autoridade a conduzi-los à espiritualidade, vocês estão encerrados numa prisão.

Se falo com franqueza, por favor, lembrem-se de que assim o faço não por aspereza, não por crueldade, não por entusiasmo do meu propósito, mas porque eu quero que vocês entendam o que eu estou dizendo. Esta é a razão porque vocês estão aqui, e seria uma perda de tempo se eu não explicasse claramente, decisivamente, meu ponto de vista. “Por dezoito anos vocês vêm-se preparando para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Durante dezoito anos vocês se organizaram, procuraram alguém que desse um novo deleite para seus corações e mentes, que transformasse toda a sua vida, que lhes desse uma nova compreensão; por alguém que os alçasse a um novo plano de vida, que lhes desse um novo alento, que os libertasse – mas agora, vejam o que está acontecendo! 

Reconsiderem, ponderem consigo mesmos, e descubram de que maneira essa crença os tornou diferentes – não com a diferença superficial de usar de um crachá, que é banal, absurda. De que maneira tal crença lhes varreu da vida todas as coisas inessenciais? Essa é a única maneira de ponderar: de que modo vocês estão mais livres, mais nobres, mais perigosos para qualquer Sociedade que seja baseada no falso e no inessencial? De que maneira os membros desta organização da Estrela tornaram-se diferentes? Como eu disse, vocês vêm-se preparando para mim durante dezoito anos. Não me importa se vocês acreditam que eu sou o Instrutor do Mundo ou não. Isto tem muito pouca importância.

Não consigo fazer-me mais claro do que isso. Não quero que concordem comigo, não quero que me sigam, quero que entendam o que eu estou dizendo. “Essa compreensão é necessária porque sua crença não os transformou, mas apenas os complicou, e porque vocês não estão dispostos a enfrentar as coisas como elas são.Vocês querem ter seus próprios deuses, - novos deuses em vez dos antigos, novas religiões no lugar das antigas, novas fórmulas no lugar das antigas, todos igualmente sem valor, todos barreiras, todos limitações, todos muletas. No lugar de velhas preferências espirituais vocês têm novas preferências espirituais, em vez de antigas adorações vocês têm novas adorações.

Todos vocês dependem, para sua espiritualidade, para sua felicidade, para sua iluminação, de outra pessoa; e nada obstante vocês estejam se preparando para mim por dezoito anos, quando eu digo que essas coisas são inúteis, quando eu digo que vocês devem jogá-las fora e olhar para dentro de vocês próprios para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do ser, nenhum de vocês está disposto a fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. Então, por que se ter uma organização?

Por que ter pessoas falsas, hipócritas me seguindo, a personificação da Verdade? Por favor, lembrem-se de que não estou dizendo algo cruel ou indelicado, mas chegamos a uma situação em que vocês têm que enfrentar as coisas como elas são. Eu disse no ano passado que não transigiria. Muito poucos me ouviram, então. Este ano eu tornei isso absolutamente claro. Eu não sei como milhares de pessoas mundo afora – membros da Ordem – têm-se preparado para mim durante dezoito anos, e ainda agora não querem escutar incondicionalmente, inteiramente o que eu digo.

Tal como disse antes, meu propósito é tornar o ser humano incondicionalmente livre, daí eu reafirmo que a única espiritualidade é a incorruptibilidade do eu que é eterno, é a harmonia entre razão e amor. Esta é a absoluta, incondicionada Verdade que é a própria Vida. Quero, por isso, libertar o ser humano, exultante como o pássaro no céu claro, aliviado, independente, extático nessa liberdade. E eu, para quem vocês estão se preparando por dezoito anos, digo agora que vocês devem estar livres de todas essas coisas, livres de suas complicações, suas confusões.

Para isto vocês precisam não possuir uma organização baseada em crença espiritual. Por que ter uma organização para cinco ou dez pessoas no mundo que compreendem, que estão batalhando, que puseram de lado todas as coisas banais? E para as pessoas frágeis não pode haver organização nenhuma que as ajude a encontrar a Verdade, porque a verdade está dentro de todos; ela não está longe nem perto; está eternamente aí.

Organizações não podem torná-los livres. Nenhum homem de fora pode torná-los livres; nem o pode o culto organizado, nem a imolação de vocês mesmos por uma causa os torna livres; nem enfileirando-se em uma organização, nem lançando-se em trabalhos, os torna livres. Vocês usam uma máquina de escrever para escrever cartas, mas vocês não a colocam em um altar e a adoram. Mas é isto que vocês estão fazendo quando as organizações tornam-se seu principal interesse.

“Quantos membros ela tem?” Esta é a primeira pergunta que me fazem os jornalistas. “Quantos seguidores você tem? Pelo número deles julgaremos se o que você diz é verdadeiro ou falso”. Não sei quantos eles são. Não estou preocupado com isso. Como disse, se houvesse mesmo um que se tenha tornado livre, isso seria suficiente.

De novo, vocês têm a ideia de que somente determinadas pessoas possuem a chave do Reino da Felicidade. Ninguém a possui. Ninguém tem a autoridade para possuir tal chave. Essa chave é seu próprio eu, e no desenvolvimento e na purificação e na incorruptibilidade desse eu particular está o Reino da Eternidade.

Então vocês verão como é absurda toda a estrutura que vocês construíram, procurando ajuda externa, dependendo de outros para o seu consolo, sua felicidade, para sua força. Estes somente podem ser encontrados dentro de vocês mesmos.

Vocês estão acostumados a que lhes digam o quanto vocês avançaram, qual é sua posição espiritual. Quanta infantilidade! Quem além de você mesmo pode dizer se você está bonito ou feio por dentro? Quem além de você mesmo pode dizer se você é incorruptível? Vocês não são sérios nessas coisas.

Mas aqueles que realmente desejam compreender, aqueles que estão tentando encontrar o que é eterno, sem começo e sem fim, caminharão juntos com uma intensidade maior, serão um perigo para tudo que não seja essencial, para fantasias, para obscuridades. E eles se concentrarão, eles se tornarão luz, porque compreendem. Tal união nós devemos criar, e este é o meu propósito. Por causa dessa real compreensão, haverá verdadeira solidariedade. Por causa dessa verdadeira solidariedade – que vocês não parecem conhecer - haverá verdadeira cooperação da parte de cada um. E isto não devido à autoridade, não por causa da salvação, não devido à imolação por uma causa, mas porque vocês realmente compreendem, e então são capazes de viver no eterno. Isso é uma coisa mais elevada que qualquer prazer, que qualquer sacrifício.

Essas são, portanto, algumas das razões porque, após cuidadosa consideração durante dois anos, eu tomei esta decisão. Não foi um impulso momentâneo. Não fui persuadido a isso por ninguém. Não me persuadem em tais coisas. Durante dois anos tenho pensado sobre isto, morosamente, cuidadosamente, pacientemente, e agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que aconteceu ser eu seu Dirigente. Vocês podem formar outras organizações e esperar por outra pessoa. Não estou preocupado com isso, nem com a criação de novas prisões, novas ornamentações para esses cárceres.

Meu único interesse é tornar o ser humano absolutamente, incondicionalmente livre.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Saudade da poesia


Saudade do mergulho em versos soltos,
Da imersão na essência.
Me faz falta a melodia da poesia dos loucos,
E as rimas da ciência.

Se a arte a esse mundo falta
E priva-me o tempo de esconder-me em palavras,
Dou meus passos ao papel em pauta,
Mas meu coração terá sempre asas.

E voarei enfim em algum tempo,
Tanto como outrora fiz.
Pois sou verso, melodia e movimento
Em dias de luta, razão e raiz.

Denise da Mata - 12/01/2014

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Conselho da Consciência



Não te identifiques com as misérias humanas. O foco de tua atenção deve estar direcionado ao que é belo e renovador e, assim, semearás novas ideias para a reconstrução desse mundo. Todos possuem seus males e devem lidar com os fantasmas em suas próprias consciências. Não nos cabe reforçar o mal no mundo por salientá-lo nas atitudes alheias. 

Solte a preocupação com o que não te pertence. Que cada um cuide de sua própria consciência e arque com as consequências de suas próprias ações. Cabe a ti renovar-te e, assim, renovar a teu redor aquilo que já está pronto para a transformação. Apenas semeie e o universo cuidará de fazer frutificar aquilo que, em terreno fértil, puder crescer para a construção do novo mundo. 

Não te entristeças com o feio a teu redor. Ele não existe de fato. É apenas fruto da ilusão do ego que esconde da percepção humana a luz que a tudo ampara. Tudo caminha para o novo, para a evolução. Apenas edifica o novo em ti mesma e finca tuas atitudes nos ditames da consciência. Entrega tua dor aos cuidados dos que te amparam e mantenha-te firme em tua missão. Tudo o mais se iluminará no devido tempo.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Queixas e Ressentimentos, por Eckhart Tolle



Queixar-se é uma das estratégias  prediletas do ego para se fortalecer. Cada reclamação é uma pequena história que a mente cria e na qual acreditamos inteiramente. Não importa se ela é feita em voz alta ou apenas em pensamento. Alguns egos que talvez não tenham muito mais com o que se identificar sobrevivem apenas com queixas. Quando estamos presos a um ego assim, reclamar, sobretudo de alguém, é algo habitual e, é claro, inconsciente, o que mostra que não sabemos o que estamos fazendo. Uma atitude típica desse padrão é aplicar rótulos mentais negativos às pessoas, seja na frente delas ou, como é mais comum, falando sobre elas com alguém ou até mesmo apenas pensando nelas. Xingar é o modo mais rude de atribuir esses rótulos e de mostrar a necessidade que o ego tem de estar certo e triunfar sobre os outros: "idiota", "desgraçado", "prostituta", todas essas afirmações definitivas contra as quais não se pode argumentar. No nível seguinte, descendo pela escala da inconsciência, estão os gritos. Não muito abaixo disso, se encontra a violência física.

O ressentimento é a emoção que acompanha a queixa e a rotulagem mental dos outros. Ele acrescenta ainda mais energia ao ego. Ressentir-se significa estar magoado, melindrado ou ofendido. Costumamos nos sentir assim em relação à cobiça das pessoas, à sua desonestidade, à sua falta de integridade, ao que estão fazendo no presente, ao que fizeram no passado, ao que disseram, ao que deixaram de dizer, à atitude que deviam ou não ter tomado. O ego adora isso. Em vez de detectarmos a inconsciência nos outros, nós a transformamos em sua identidade. Quem é o responsável por isso? Nossa própria inconsciência, o ego. Algumas vezes, a falta que apontamos em alguém nem mesmo existe. Ela pode ser um erro total de interpretação, uma projeção feita por uma mente condicionada a ver inimigos e a se considerar sempre certa ou superior. Em outras ocasiões, a falta pode ter ocorrido; contudo, se nos concentrarmos nela, às vezes excluindo todo o resto, nós a tornamos maior do que é. E dessa maneira fortalecemos em nós mesmos aquilo a que reagimos no outro. 

Não reagir ao ego das pessoas é uma das maneiras mais eficazes de não só superarmos nosso próprio ego como também de dissolver o ego humano coletivo. No entanto, só conseguimos nos abster de reagir quando somos capazes de reconhecer o comportamento de alguém como originário do ego, como uma expressão do distúrbio coletivo da espécie humana. Quando compreendemos que não se trata de nada pessoal, a compulsão para reagir desaparece. Não reagindo ao ego, muitas vezes podemos fazer aflorar a sanidade nos outros, que é a consciência não condicionada em oposição à consciência condicionada. Em determinadas ocasiões, talvez precisemos tomar providências práticas para nos proteger de pessoas profundamente inconscientes. Isso é algo que temos condições de fazer sem torná-las nossas inimigas. Nossa maior defesa, contudo, é sermos conscientes. Alguém passa a ser um inimigo quando personalizamos a inconsciência que é o ego. A não reação não é fraqueza, mas força. Outra palavra para a não reação é perdão. Perdoar é ver além, ou melhor, é enxergar através de algo. É ver, através do ego, a sanidade que há em cada ser humano como sua essência.

O ego adora reclamar e se ressente não só de pessoas como de situações. O que podemos fazer com alguém também conseguimos fazer com uma circunstância: transformá-la num inimigo. Os pontos implícitos são sempre: "isso não deveria estar acontecendo", "não quero estar aqui", "estou agindo contra a minha vontade", "o tratamento que estou recebendo é injusto". E, é claro, o maior inimigo do ego acima de tudo isso é o momento presente, ou seja, a vida em si. 

Não confunda a queixa com a atitude de informar alguém de uma falha ou de uma deficiência para que elas possam ser sanadas. Além disso, abster-se de reclamar não corresponde necessariamente em tolerar algo de má qualidade nem um mal comportamento. Não há interferência do ego quando dizemos ao garçom que a comida está fria e precisa ser aquecida -  desde que nos atenhamos aos fatos, que são sempre neutros. "Como você se atreve a me servir uma sopa fria?" Isso é se queixar. Nessa situação, existe um "eu" que adora se sentir pessoalmente ofendido pela comida fria e ele aproveitará esse fato ao máximo, um "eu" que aprecia apontar o erro de alguém. A reclamação a que me refiro está a serviço do ego, e não da mudança. Algumas vezes fica óbvio que o ego não deseja que algo se modifique para que possa continuar se queixando. 

Veja se você consegue capturar, ou melhor, perceber, a voz na sua cabeça - talvez no exato instante em que ela esteja reclamando de algo - e reconhecê-la pelo que ela é: a voz do ego, não mais que um padrão mental condicionado, um pensamento. Sempre que a observar, compreenderá que você não é ela, e sim aquele que tem consciência dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. Atrás, em segundo plano, está a consciência. À frente, se situa a voz, aquele que pensa. Dessa maneira você está se libertando do ego, livrando-se da mente não observada. No momento em que você se tornar consciente do ego, a rigor ele não mais será ego, e sim um velho padrão mental condicionado. O ego implica inconsciência. Ele e a consciência não podem coexistir. O velho padrão mental, ou hábito mental, pode sobreviver e se manifestar por um tempo porque tem o impulso de milhares de anos de inconsciência humana coletiva atrás de si. No entanto, toda vez que é reconhecido, ele se enfraquece.

Do livro "Um novo mundo - o Despertar de uma nova consciência."

domingo, 4 de agosto de 2013

Gotas no oceano


Somos gotas apartadas do oceano. Essa é a verdade. Vivemos em uníssono apenas com nossos desejos, alimentando e sendo alimentados pela ilusão do que os olhos veem, e seguindo, lutando desesperadamente para preencher o vazio existencial que nos marca. Ver o Todo com os olhos da individualidade faz com que a vida pese nos ombros, vez que só o que nos rodeia é a velha competição em que vence o mais forte, o mais esperto, o mais bem relacionado. A cena que se repete no entorno traz contornos da disputa cruel, do massacre aos valores em nome do posto mais alto. E pobre dos bem intencionados e de bom coração, que, ingênuos, são preteridos no jogo de poder que se exalta nesse planeta. Pelo menos assim parece aos que se sentem apartados do Todo.

Veja um mesmo vento, numa mesma paisagem. Para um trabalhador que semeia o campo, pode ser uma brisa, um refresco do calor do sol. Já para o pólen das flores é agente da vida, transporte para a manutenção da espécie. Para um pequeno inseto no chão, é uma tempestade que devasta tudo o que encontra e contra a qual não se pode lutar. Em que perspectiva pautamos a nossa manifestação enquanto seres viventes?

Se nos manifestamos enquanto oceano que se mostra através das gotas, a cena muda o contorno dando novo sentido ao entorno. O mais forte jamais compete, o mais sábio jamais pretere e o bem relacionado em essência jamais perde, pois que repousa na vitória da sintonia com o universo. Gasta-se energia em demasiado correndo-se atrás do que se esvai com o tempo, e somente os que buscam a unicidade do imutável e preenchem o seu próprio vazio existencial podem lidar com o dia a dia dando peso e medida adequados às lutas que se apresentam.

Temos uma doente tendência a tomar por fim o que deve ser apenas instrumento intermediário. E pobre daqueles que se deixam cegar pelo que os olhos podem ver! Essa sim é uma realidade cruel, contra a qual agente externo nenhum pode ir. Somente a vontade interior de cada individualidade pode levar ao caminho do despertar. O caminho de volta pra casa, o trabalho de se preencher o vazio é trabalho pessoal e intransferível, cabendo a cada um apenas a manifestação daquilo que lhe é possível.

Apenas devemos ter em mente que o cansaço existencial advém da perspectiva limitada e não dos eventos em si. E caso nos apartemos em meio à turbulenta e forte ilusão do mundo material, que saibamos retornar ao lar, firmando a própria consciência nos princípios do universo, e tudo mais no entorno tomará os contornos devidos.

Viver não é luta, é arte. Não basta ser forte, há de se ser essência.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Minha releitura do Pai Nosso...


Pai Nosso que está em mim,
Santificados sejam todos os Teus Nomes!
Venha em nós o Vosso Reino,
Seja feita a Tua Vontade aqui na terra como no céu.
O alimento do corpo e da alma nos dai hoje.
Compreendei as nossas falhas
Da mesma forma que compreendemos as falhas alheias.
Não nos deixeis cair na ignorância,
Mas livrai-nos do mal em nós!

Amém!!!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre amor e trabalho, em homenagem a Chico Xavier.




Um dos maiores seguidores do Cristo faria hoje 99 anos de idade. Chico Xavier, considerado um militante do movimento espírita, era, na realidade, a meu ver, um instrumento do AMOR. Lamento quando ouço comentários depreciativos a seu respeito vindo daqueles que o fazem vítima de seus preconceitos religiosos, daqueles que não conseguem ver o ser humano por trás dos dogmas das instituições. Não enxergo em Chico um líder do movimento espírita, mas um homem que se colocou à disposição de Deus para ser um operador da Vontade do Supremo.

O Amor é a única Verdade desse mundo e nossa maior responsabilidade é manifestá-lo no mundo físico, permitindo-nos ser instrumento da Sinfonia Divina já em curso. E Amar Incondicionalmente implica em muito trabalho. Não ama aquele que se omite, se esconde, que foge do ajuste com a própria consciência. Ama aquele que luta pelo bem comum, o que limpa o próprio coração e recomeça todos os dias a afinação do próprio psiquismo. Ama o que aceita o outro como é, o que não espera nada em troca e que trabalha incansavelmente para ensinar apenas com o próprio exemplo, pois só tem o poder de mudar o mundo externo aquele que purifica seu mundo interno.

A verdadeira educação do ser humano vem da essência, é dita pela consciência e manifestada pelo coração. Cabe a cada um edificar o amor dentro de si para servir à humanidade da maneira que lhe cabe de acordo com o movimento do universo. Não importa que tipo de trabalho seja feito, o importante é com que motivação se faz. Varrer um chão ou limpar um banheiro pode ser muito mais proveitoso ao ser humano e a toda humanidade do que os trabalhos intelectuais e políticos que alguns fazem de forma vazia.

Chico Xavier não tocava o coração das pessoas porque falava de amor, mas porque vivia o amor. Ele, assim como Mahatma Gandhi, líder político e social da Índia, eram líderes de si mesmos, comandavam os próprios instintos, controlavam os próprios desejos e consequentemente influenciam até hoje milhões de pessoas, pois seus ensinamentos tinham essência, tinham prática. Por que todos os grandes mestres da humanidade nos aconselharam a “amar nossos inimigos e fazer bem aos que nos odeiam”? O que há por trás disso? O que faz com que um homem simples, comum, como Chico Xavier, ou com que um simples advogado como Mahatma Gandhi, toque o coração de milhões de pessoas? São questões a respeito das quais devemos refletir. Estamos sedentos de Amor, de Verdade, e nosso coração reconhece aqueles que já bebem na fonte da Consciência Superior. Mas não basta reconhecer, devemos aprender. E também não basta apenas aprender, temos que praticar, pois muitos ainda mais precisam ser alimentados.

Manifestar a essência divina não é algo que vem em decorrência de um privilégio divino, nem se consegue por milagre da noite para o dia. Isso requer trabalho, muito trabalho. Exige um mergulho em si mesmo, um enxergar dos próprios vícios com uma determinação em transformá-los em virtudes e um reconhecimento dos próprios talentos. Tal processo deve acontecer de forma incessante e persistente, sendo às vezes doloroso. Requer uma submissão à Consciência Superior, um despertar da Humildade no ego para que os caprichos de nossa personalidade sejam submetidos a uma Sabedoria que está além do cérebro físico. É um trabalho por vezes cansativo, que exige muita força e coragem, mas que concede aos que persistem o bálsamo da libertação. Não é algo para observarmos e admirarmos nos grandes homens, como Chico Xavier. É algo para lutarmos para construir em nós, através das dicas que os bons exemplos nos deixam.

A cura da humanidade não se fará por milagre, nem através daqueles que esperam sentados e reclamando da vida que venha de um missionário que está longe. Virá através da edificação do Bem em cada ser humano e isso exige de nós muito trabalho. O despertar do amor verdadeiro em nosso mundo interno nos liberta, e a liberdade de consciência nos traz a responsabilidade perante o outro e perante o mundo. Há muito trabalho a ser feito e poucos são os que querem abraçar a responsabilidade de curar a si mesmos para colaborar no processo de cura da humanidade.

Chico foi um desses. Tenho certeza de que, de onde está agora, ainda trabalha incansavelmente para manter acesa a sua própria luz e assim seguir iluminado seu entorno, ajudando na evolução desse orbe. Que sua luz, nesse dia, se faça ainda mais forte em todos nós. A esse mestre, pai e irmão que tanto amo e que tanto me ensina, todo meu amor e gratidão sempre.

O trabalho continua!!!



sábado, 22 de dezembro de 2012

21/12/12


Um dia marcado por profecias, especulação e piadas começou com um céu azul, ares de verão e sons de um novo tempo. Sinto-me muito grata por tudo o que a vida me deu de bom, mas, principalmente, pelo que ela me deu de doloroso. Aprender é sempre uma grande oportunidade e enxergar o sofrimento como lição é um exercício grandioso que acalenta o coração.

Despeço-me hoje de uma parte de mim mesma, de partes de coisas "velhas" que ainda deixam um ranço na vida. Despeço-me do que me doeu, das expectativas frustadas, dos sonhos impossíveis e dos sonhos possíveis pelos quais eu não soube lutar. Curvo-me ao novo, ao renascimento, ao refazimento de mim mesma em um novo tempo de ainda mais aprendizado. Não espero estar livre das dores, mas desejo imensamente suportá-las com coragem, esperança e grandiosidade, deixando-as ir embora para que as alegrias também cheguem. E quando estas chegarem, não espero que sejam eternas, mas que iluminem um pouco mais a minha alma para que eu tenha luz para suportar os instantes de escuridão em mim mesma.

Desejo limpar meu coração, livrar minha alma de meus próprios apegos e ter fé na vida ainda mais. Desejo enfrentar o mundo com responsabilidade, sem me sentir vítima, nem carrasca, mas capaz de realizar as mudanças externas que anseio a partir das transformações em minha própria postura diante da vida.

Desejo amar, amar e amar...tanto quanto me seja possível, mais ainda do que o impossível me mostra. E quero confiar novamente e mais; e se tiver que me decepcionar, que o bem em mim não permita que eu me transforme em um ser pessimista.

Espero tudo da vida, aceito tudo do universo e despeço-me hoje da postura infantil e ilusória que me marcou até então. E sigo daqui pra frente sem imaginar futuro, sem repensar passado, mas firme no aqui e agora, aceitando tudo como presente.

Um lindo novo tempo para a humanidade!!! Que esses ares de vida encham nossos corações!!!
Que a vida nos abençoe e se faça em nós!!!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Sobre a realização de nossos sonhos, por Prem Baba




Pergunta: Amigo Prem Baba, tenho a sensação de que perdi a batalha, porque existem sonhos não realizados na minha vida. Devemos persistir em tentar realizar nossos sonhos ou desistir é a melhor solução? A sensação é de um lutador que treinou bastante e não conseguiu vencer o campeonato. Eu sinto culpa, pois parece que foi por incapacidade minha. Não sei a quem quero agradar. Percebo que isso bloqueia o fluir da minha vida. De repente, uma inércia bloqueia os comandos e parece que não sou bom o suficiente. Algumas vezes, penso que quero agradar meu pai ou minha mãe. Como me livrar dessa necessidade? Como aceitar que, às vezes, não conseguimos realizar os sonhos?

Prem Baba: Esse é um assunto profundo. Porque muitas vezes, os sonhos são criados pela própria corrente de negação, que inclusive cria sonhos impossíveis de serem realizados. Essa corrente de negação é uma expressão da autopunição. Não realizar tais sonhos é uma forma de se punir. Então, muitas vezes, você estabelece metas muito elevadas como uma forma de se punir; como uma forma de afirmar para si mesmo: “Eu não sou competente. Eu não sou capaz”.

Essa é uma forma de alimentar o ‘eu’ sofredor, na forma da vítima. Essa vítima é uma entidade, que como tudo que é vivo quer continuar viva. E esse ‘eu’ vítima vive de quê? Vive dos fracassos e das derrotas; e de todos os dramas criados por elas. Ele vive de todas as fantasias de impotência criadas pela derrota.
Quer dizer que eu não posso ter uma meta elevada para me direcionar? Sim, você pode ter uma meta elevada. Mas nesse caso, você tem consciência de que se trata de uma indicação baseada na realidade da sua percepção. A sua intuição diz que é possível e assim, você tem aquela meta em mente e move-se naquela direção. Isso pode vir da sua corrente afirmativa, porque ilumina o seu impulso de vida, ou seja, dá força para viver.

Mas, quando estabelece uma meta elevada e por não atingi-la você se lança nos infernos da natureza, culpando-se e punindo-se, isso é uma estratégia do tirano interno, do ‘eu’ idealizado, que faz você criar uma meta idealizada tão distante que é impossível de atingir. E atingir tal meta significa: “Se eu for perfeito, eu vou conseguir o que eu quero” (que é ser reconhecido e ganhar atenção). Mas, como é impossível atingir essa meta, você acaba caindo no vale do sofrimento.

Não é difícil de identificar uma meta que nasce da sua corrente de afirmação ou da sua corrente de negação: quando nasce da afirmação, ela ilumina o seu impulso de vida, ou seja, dá vontade de viver e de fazer o que precisa ser feito. Quando nasce da negação, cada vez que não atinge a meta, você cai nos vales sombrios.
Há que se fazer uma avaliação desses sonhos não realizados. Você passou a vida treinando para vencer qual campeonato? Qual é a batalha que você está perdendo? Há que se avaliar se é algo possível de ser realizado ou se é uma fantasia criada pela sua corrente de negação, justamente para você se sentir impotente. Se for algo possível de ser realizado, mas você simplesmente não consegue, realmente precisamos ir por outro caminho; precisamos usar outro jeito de trabalhar com esses bloqueios.

Então, alguns sonhos precisam ser realizados e para isso, muitas vezes, é necessário identificar o que está te impedindo. Mas, você precisa abrir mão de alguns sonhos, porque eles não têm lastro na realidade. Qual é o seu caso? Quais são os sonhos guardados nos seus porões? Esses sonhos são formas de desejos e esses desejos agitam sua mente? Então, é preciso chegar a um acordo com eles.

Uma forma simples de lidar com isso é primeiro listar esses desejos sem vergonha de admiti-los. Coloque “preto no branco”, escreva em um papel para você não se enganar. Num primeiro momento, não julgue os seus sonhos e desejos, por mais que eu tenha falado sobre o absurdo de alguns sonhos. Mas, o fato é que muitas vezes, não há como saber se eles são absurdos ou não. Nesse primeiro momento, é muito importante que você os coloque para fora. E, a partir daí, faça um estudo na luz da razão. O que é um sonho completamente sem sentido? É apenas uma criação da sua corrente negativa, ou seja, uma estratégia do “eu” sofredor para sabotar a sua felicidade e para você ficar andando em círculos alimentando dramas.

Veja os sonhos que são passiveis de realização, mas que através da vontade consciente, você não está conseguindo realizar. Nesse caso, a estratégia de persistir na realização do sonho deve mudar, porque quanto mais tenta, mais você se frustra. O treinamento para vencer o campeonato não está adequado. Você pode colocar a força que for, mas não adianta, porque a vontade consciente não é suficiente para realizar; porque existem algumas coisas na sombra e você não consegue enxergar. Por isso, o seu trabalho deve ser identificar o que está no campo da sombra e sabota os seus sonhos. Comece a questionar: “O que em mim sabota a realização desse sonho?”

Você acredita ser impotente, simplesmente porque não está usando a estratégia adequada.

Vamos mostrar um exemplo bem simples, bem material e fácil de ser identificado: você tem como sonho ganhar tanto dinheiro por mês; você já verificou que não é impossível, pois está baseado na realidade, mas através da vontade consciente, você tenta, mas não consegue, acontecem “coisas” no meio do caminho, que não deixam você realizar essa meta. Naquele mês você consegue, mas surge uma despesa extra que leva todo o dinheiro embora. Então, você pensa que é impossível, quanto mais você se esforça para atingir essa meta, mais você se frustra. Atente para uma lei do psiquismo: quanto mais frenética e ansiosa é a sua busca pela realização de algo, através da sua vontade consciente (porém, você não consegue), maior é a sua negação e a sua inconsciência a respeito dessa negação.

Se a sua estratégia é tornar-se consciente dessa negação, não perca o seu tempo tentando mudar o mundo lá fora; não desperdice o seu tempo tentando mudar o outro, isso não é possível. Lembre-se de que tudo que está acontecendo lá fora é somente um reflexo do que está acontecendo dentro de você. Quer mudar lá fora? Tem que mudar dentro. Quer abrir o caminho lá fora? Então, abra o caminho dentro. Quer remover os obstáculos do seu caminho lá fora? Comece fazendo isso dentro.

Trabalhe para identificar os bloqueios que impedem você de realizar os seus sonhos. Você tem que começar de algum lugar, então comece de uma crença, que é um conhecimento emprestado (que neste momento eu estou te emprestando), até que se torne seu conhecimento, ou seja, até que se torne a sua experiência. Este conhecimento é perceber que se você não está conseguindo realizar tais sonhos, é porque existe um “não” dentro de você para esse sonho, por mais que no nível consciente o “sim” seja frenético e urgente. Se realmente há um impedimento, saiba que há um “não”. Esse “não” está dentro de você, mas está na sombra.
O que é sombra? É um nome que indica que está escondido e você não vê. Há que se trabalhar para trazer para o campo aberto.

A capacidade de realização nesse plano é infinita. E a permissividade desse plano também é infinita. Sendo assim, eu posso concluir que tudo é possível, desde que você diga um “sim” completo. Mas, se a mente diz “sim” e o coração diz “não”, você não vai atingir a meta. Pensamento, palavra e ação devem estar unidos na mesma direção. Experimente fazer um exercício: se você identificou o objetivo que quer atingir, diga para si mesmo: “Eu quero atingir essa meta com todas as forças do meu coração.” Veja se você consegue fazer isso. Veja se essa frase sai com força ou não. Observe para ver de onde sai essa afirmação. Quando você está inteiro você sente pulsar no seu corpo todo. Você é um bloco inteiro na mesma direção: pensamento, palavra e ação, estão unidos na mesma direção.

Assim você torna-se um raio de realização: Onde não? Por que não? Se você é um “sim” completo, você vai chegar onde tem que chegar e não vai criar uma meta impossível. Porque esse “sim” é uma manifestação da Inteligência Criadora; uma criação de Deus. Assim, você nunca vai criar uma meta impossível.

Durante certa fase da jornada, os desejos têm um papel importante, porque eles estão trabalhando inclusive para dissolver os “nãos” que ainda estão no sistema. Esses “nãos” estão sendo sustentados por pactos de vingança do passado, significa que ainda tem um passado no seu sistema que ainda não foi integrado. Durante uma fase, você terá que persistir nos sonhos, porque eles estão te ajudando a se curar das mazelas do passado. Eles estão a serviço do seu processo de desenvolvimento pessoal. Quando esse ‘eu’ estiver bem estruturado, tudo muda e começa outra história, é hora de largar os desejos (largar “bem largado”…). Porque você já cansou de brincar com esse brinquedo, mas isso não é uma resistência ou uma fuga.
Você não é incapaz de realizar os seus sonhos. Essa sensação de incapacidade ocorre, porque você não está usando a estratégia correta para atingir a meta e isso faz com que você se sinta impotente. É somente uma questão de ajuste. A princípio você pode tudo.

E o karma? O karma é o seu “não”; é o seu sentimento de não merecimento. O karma não é uma dívida de sofrimento, é uma dívida de aprendizado. Você aprende, ele desaparece. Há que se abrir para aprender a lição.

Os seus principais inimigos são: o orgulho, o medo e a obstinação. E o seu desafio é “transformar o limão numa limonada”. Você tem que transformar esses inimigos em seus mestres. É assim que você entrega o “anel” ao fogo de “Mordor” (referência ao filme Senhor dos Anéis). Assim que você vence Lúcifer (que é o treinador psicológico).

Se você se abre tudo fica muito simples. Realizar sonhos é algo muito simples, fácil e rápido. Eu vou te provar isso ainda. A mente é uma árvore de realização dos desejos. Ela está condicionada e por isso você não consegue usar esse poder. Quando você aprender, você verá que, assim que você pensa, tudo aparece. Você vai querer até largar esse poder e deixá-lo para Deus. É verdade! Eu não quero mais nada, deixo tudo para Deus! Ele que fale o que é bom para mim.

Abençoado seja cada um de vocês. Que possamos chegar a um acordo com o desejo.

Sri Prem Baba

Texto original no link: http://www.prembaba.org.br/india2012/po/?p=1121&d=02.02.2012